quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Pinga ni mim

E então, sem qualquer aviso ou intenção, eu sinto uma vontade quase desesperada de escrever. A agitação é grande. Procuro papel, lápis, caneta, teclado, computador, todo e qualquer meio que me faça justificar o fim esperado de uma página coberta de letras. 

Saber que a inspiração teve a bondade de passar pela minha mente vazia - habitada apenas por um pano de chão encardido e uma torneira que goteja irritantemente - traz um entusiasmo só testemunhado por um camponês que recebe a visita de sua majestade em seu humilde casebre ou de uma adolescente atendendo, ansiosa, a ligação do seu primeiro amor. 

Ah, uma respiração ressonante e profunda e a primeira frase toma forma. Como um abre-alas magnífico, ela tem a função de dar as boas-vindas a todas as outras palavras, orações e períodos que, em marcha, se apresentam elegantemente aos olhos de sua criadora. Feliz, sorrio em retorno e preparo-me para aplaudir de pé a coesão e coerência perfeitas da tessitura das ideias quando... que cheiro é esse? Fumaça, muita fumaça envolve todo o ambiente e o desfile para. O carro abre-alas apresenta problemas sérios no acelerador e não pode mais continuar. As frases que vinham logo atrás, tossindo tontas, batem umas nas outras, sem direção. O que antes era uma parada bela e organizada, vira um empurra daqui, puxa de lá, ei essa vírgula é minha, para onde você pensa que vai com essa interrogação?

Olho para a cena visivelmente desapontada, e meu sorriso de dentes largos murcha no mesmo instante em que tiro o chapéu de festas. Mais uma vez, não deu certo.

Ao fundo, só o que consigo ouvir é o som líquido e ritmado das minhas ideias escorrendo pelo ralo.


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