quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Espetáculo Diário

O dia-a-dia frenético da cidade grande nos deixa bem afastados da natureza. Foi só quando me vi perto dela por aqui, sentindo a rigidez do solo e o roçar das plantas que sobrevivem neste clima árido, que lembrei o quanto o concreto cotidiano da urbe paulistana me desacostumou da beleza das árvores, da confusão de folhas ao vento, das cores do tapete de flores que se formam no chão quando elas caem. Afinal de contas, eu sou brasileira e moro em um dos países mais exuberantes no que diz respeito à natureza. 

O deserto é diferente de tudo que eu já vi na vida. Cheguei, no princípio, a imaginar que nenhum tipo de natureza poderia ser capaz de conviver com este calor dantesco. Claro, não poderia estar mais enganada. Mesmo sem possuir a frondosidade das matas tropicais, o deserto mostra o seu valor de diferentes modos. Destes, o pôr-do-sol é um dos que mais me fascina.

Foto por Ciça Prado

Fenômeno raríssimo para quem mora em uma cidade rodeada de arranha-céus e poluição intensa, não é de se admirar que eu tenha presenciado esta maravilha com muito pouca frequência em meu próprio país. Tucson, no entanto, depois de ser castigada brutalmente pelos raios de sol durante toda a manhã, recebe em seu céu este presente simplesmente magnífico, como se fosse uma tela pintada pelo artista mais talentoso que há. 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

In Media Res

Tucson, 1 de agosto de 2013.
Documentar as aventuras que vivi e ainda vou experimentar nas terras áridas do deserto de Sonora e em outros cantos do mundo não deveria ser o motivo principal para escrever este blog. Tudo vem mais de uma necessidade imensa de não deixar a mente evanescer-se no esquecimento ou perder a noção e a doçura de momentos que têm tudo para serem inesquecíveis. Isto tem acontecido comigo com muito mais frequência do que deveria ser tolerado. Esqueço. Muito. Mesmo o apertar dos olhos e o franzir da testa não ajudam a recuperar as memórias que estão ali escondidas, sorrateiras, preguiçosas. A frustração maior está ai: as memórias continuam no mesmo lugar, apenas puxam o cobertor e caem em um sono profundo.
Isto é um despertador, uma maneira de agitar algumas das sensações mais deliciosas que tive na vida e refletir sobre como a minha trajetória tem sido maravilhosa, apesar de um ou outro obstáculo.
No meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho.
Prefiro pegá-la do chão e analisar seu formato, cores e beleza rígidas a chutá-la para o canto. Não nego a importância do olhar adiante e objetivo, mas deixar de aproveitar a paisagem ao meu redor não faz sentido. Este blog é os meus olhos perscrutando a pedra, decifrando-a. Aqui no Arizona, pedra é o que não falta.
No meio do caminho, no meio das coisas, no meio de tudo. Recomeço in media res porque já estive aqui e só olhei para frente. São poucas as vezes que nos é dada a oportunidade de experimentar algo novamente. Depois que a última gota do suco de abacaxi com laranja é sugada, o que sobra? A vontade de mais, a tristeza do vazio, o arrependimento de tudo ter passado tão rápido. A mim foi dada uma nova chance para experimentar e vou aproveitar cada gota.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Post de Transição

Enquanto isso, no lustre do castelo...

Apresento-vos um post de transição. Significa que passou-se muito tempo entre o último e este aqui. Tempo o suficiente para que ideias surgissem, mudanças fossem feitas e decisões tomadas. 

Só para avisar. 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

De um albergue sujo para o mundo!


Tem acontecido um milhão de coisas na minha vida, e essas foram só as poucas que consegui contar. Vamos, finalmente, começar a contar mesmo. Neste momento, estou escrevendo de um albergue em Washington D.C., um dos piores lugares em que já fiquei na vida. Não me refiro a cidade, que fique bem claro. O Distrito de Columbia é maravilhoso! Este albergue, no entanto, representaria minha primeira impressão de uma moradia do tipo, já que nunca tinha me hospedado em um lugar desses. É claro que já tinha previamente feito minha cabeça para não esperar nenhum luxo e riqueza, nada comparado ao tratamento quase VIP que tive no Hyatt Hotel, onde fiquei os quatro primeiros dias da minha estadia na terra do Obama. Tudo pago pela Fulbright, patrocinadora do meu programa e a razão por eu estar aqui nos Estados Unidos. 

A questão é que, mesmo tendo que tirar nossos sapatos logo na entrada do albergue, isto não impede que o lugar seja cheio de pó e sujeira. Ninguém varre, ninguém limpa, ninguém passa pano. O cara “supostamente” responsável por fazer estas coisas está sentado à minha frente com um fone de ouvido branco maior que a cabeça dele, navegando na Internet. Estou na sala comum do albergue, já que é impossível ficar no quarto de oito camas em que durmo, em cima de uma beliche, sem uma tomadinha sequer para conectar o computador ou carregar o celular e a bateria da câmera. Aff... Eu sei que não estava esperando por luxo mas este não é um lugar bom nem para passar um tempinho, hanging out, descansando.

O problema não fica aí. O banheiro: sujo. Os tapetes: sujos. Os lençois: manchados e fedendo a peixe. Passo até longe da cozinha. Sem contar o rato que viram correndo por aqui! Para evitar mais aborrecimentos, simplesmente acordo bem cedo de manhã e saio na lapa do mundo. Ah, e esta parte do mundo é linda!

Washington D.C. é coberta de história em todos os cantos. Não tive muito tempo de conhecer a cidade por causa das demandas da conferência, mas esses quatro dias livres que vou passar aqui (estou na noite do terceiro) me deram várias possibilidades para ver um bocado de coisas. E quanta coisa! É impossível digerir tanta informação em tão pouco tempo. Como comentei, os fatos da história estão por toda a parte; na arquitetura das casas juntinhas, parecendo o pelourinho; nos monumentos como o Lincoln Memorial, o Washington Monument, o Capitol Hill; nos museus do Instituto Smithsonian (cara, fui ao Smithsonian!) e em tudo o mais que esta cidade representa para os americanos. Realmente gostaria de ter um guia turístico nativo para me dar uma ideia real do que tudo isto significa, para me contar o que ele ou ela sente quando veem a estátua do Abraham ou a Casa Branca iluminada. Para mim, são edificações incríveis e portentosas, representações do poder americano que se estende muito além de suas fronteiras, por mais que gostemos disso ou não. Ver tudo com olhos de turistas também é legal. Na verdade, eu posso me misturar com a população e ninguém perceber que não sou daqui. A cidade é bem diversificada e tem pessoas e turistas de todos os lugares do mundo. Aliás, acho que hoje vi uns três ou quatro grupos de brasileiros no National Air and Space Museum. Também nesta cidade foi onde vi a maior quantidade de negros (ou African Americans, como queira) aqui nos Estados Unidos. Ouvi dizer que é assim mesmo, que a cidade recebe até o nome de “Chocolate City” por essa razão. Que meigo. 

Tenho muita coisa para falar. Melhor dizendo, quase 5 meses no Arizona mais Washington. Apesar disto, preciso só comentar o fato de que comprei um journal para escrever tudo isso aqui em papel. Agora, pergunta se tô fazendo isso? Hum... ai ai... 
Continuo mais tarde. Beijos!

domingo, 4 de novembro de 2012

Toc Toc! Quem bate?

Oi, tem alguém aí?

Tô sentindo muitas saudades de vocês! 

Neste exato momento, 2:20 da madrugada, estou escrevendo um relatório para uma aula na semana que vem. Mesmo sabendo que tenho tantas coisas a fazer e que isso vai me manter ocupada por muito tempo, meus pensamentos sempre voltam para o lugar em que eu mais amo estar. Ai ai, Brasil!

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Pronta para a Labuta!

É difícil que eu consiga escrever sobre os acontecimentos de três meses, cronologicamente, em um curto espaço de tempo. Por isso, entre cada relato, vou falar sobre alguma coisa arbitrária que conta um pedacinho da minha vida aqui no Arizona. Espero que possa montar todo o quebra-cabeças mais rápido, além de pedir redenção pela minha falta de atenção ao blog desde que cheguei aqui. Sim, tenho que admitir que essa ideia foi de um amigo meu - a criatura mais chata na face desta Terra! Tu sais qui tu es! :P

Sempre lutei para diminuir a quantidade de horas que ficava preparando aulas no Brasil. Realmente, nenhum professor pode se dar ao luxo de não trazer trabalho para casa. Fora da sala de aula, temos que corrigir trabalhos, provas, atividades; dar atenção aos alunos com dificuldade e criar um plano de ajuda;  lidar com os problemas extra-classe deles (alto grau de ansiedade e stress, situação complicada no trabalho, problemas com a família, cachorro que come lição de casa... a lista só tende a aumentar!). Junto com tudo isso vem a preparação de boas aulas, que sejam compreensíveis para os alunos e que vão ajudá-los a adquirir a língua de um modo divertido, descontraído e efetivo. Por esse motivo, ficar trabalhando nas aulas até muito, muito tarde da noite era rotina. 

Aqui, devo dizer que a vida é bem mais tranquila. Apesar de ter muito mais alunos por sala do que nos meus empregos no Brasil, só tenho duas turmas. A cobrança ainda sim é bem grande, já que estão todos aprendendo a língua portuguesa no nível universitário. Estas aulas de línguas são dadas por alunos de pós-graduação que, por trabalharem para o departamento, tem a mensalidade da faculdade toda quitada. Maravilha, não? Depois explico como isso funciona. Estes alunos, chamados de GATs (Graduate Teaching Assistants), trabalham em seus projetos de mestrado e doutorado ao mesmo tempo que dão aulas. Muitos deles reclamam que isso dificulta o desenvolvimento de suas teses e dissertações. Mas, poxa vida, fico comparando com minha vida de professora no Brasil: trabalhava em três lugares, tinha que preparar umas 10 aulas diferentes, perdia um tempo incrível tentando oferecer o melhor pros meus alunos para receber uma ligação cancelando a aula meia-hora antes; ganhava pouquíssimo e ainda tinha que aturar as pessoas ao meu redor dizendo que professor não trabalhava de verdade. Ah, me poupe! (depois de ler essas frases, aquele meu amigo chato vai dizer: "Viu? Eu te falei!")

Bom, toda essa ladainha aí em cima é pra mostrar a foto abaixo. Aqui, ainda fico preparando minhas aulas até tarde. Isso acontece normalmente porque me falta tempo de fazê-lo antes. Prefiriria, claro. Não há nada como a luz do sol para clarear as ideias! Quando termino, coloco tudo que preciso levar dentro da minha bolsa e deixo ali pertinho da cama. No dia seguinte, me arrumo, tomo café e parto pro mundo! O detalhe é que uso para trabalhar a minha bagagem de mão que trouxe do Brasil. Todos que olham me perguntam se eu estou de mudança. :D


Antes eu só levava a mala porque não tinha bolsa a tira colo e precisava carregar meu laptop comigo. Depois, comprei esta bolsa linda (Tommy Hilfiger - $ 25.00!) e simplemente acabei carregando tudo e mais um pouco! Salto alto, óculos escuro e passe de ônibus. Pronta pra labuta!

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Até Logo

Ok, nem vou começar notando o fato vergonhoso de que a continuação do post anterior veio mais de um mês depois que o escrevi. Não vou falar disso. Vamos ao que interessa.

Acho que a primeira pessoa que vi no aeroporto foi o Juliano, depois a Micheli, depois a Jucy, e assim, um a um, o primeiro grupo de Fulbrighters brasileiros a embarcar este ano (tirando a Larissa e a Adriane que já estavam aqui nos EUA) formava a fila no check-in, certificava-se que todos os documentos importantes não tinham ficado em casa e que tudo estava pronto para aquela que seria a maior viagem de nossas vidas! Bom, da minha certamente era.

Como contei anteriormente, toda minha família estava presente. Enquanto seguia a fila com malas mais pesadas que um lutador de sumô (olha só minha tentativa infame de fazer comparações criativas... affe...), papai, mamãe, irmã, primo, titia, todos iam me acompanhando ao lado, dando aquele apoio moral.

Se pudesse, ela traria frango com farofa. Certeza!

Sabe, a família é grande e o preço dos alimentos no aeroporto assusta qualquer turista, quem dirá brasileiros na pindaíba. Assim, para que eventualmente não morrêssemos de fome a ponto de ter que comprar um pão de queijo por R$ 3,00, mamãe veio munida de duas sacolas repletas de maçãs, mexericas, bolachas de água e sal, bolacha doce, água, enfim! Sentir fome e não ter o que comer não era um problema. Olha uma das sacolas aí em cima!

Outra coisas muito legal foi que Jucy, Vivi, Juliano - que já tinham se despedido de suas famílias antes de vir ao aeroporto - se achegaram a nós e ficamos todos ali, uma família só! Vide Jucy que adotou papai e mamãe e os chamava de tio e tia todo o tempo! Sua fofa! Meus pais te adoram! 

Juliano, Jucy, eu e Vivi

A hora do embarque se aproximava e eu sabia que teria que dizer adeus para as pessoas que eu mais amava (amo) nesse mundo. Eu estava relativamente tranquila. Aquele conversê todo, comilância de mexerica e fotos tiradas ao lado de malas e carrinhos no aeroporto aliviaram a tensão da despedida e deixaram o clima muito mais descontraído. 

A hora chegara (com direito a pretérito mais-que-perfeito, porque sou uma professora de português aplicada, rs). A cada abraço que dava nos meus familiares, tentava puxar deles tudo o que vivemos e o que faz com que eles signifiquem tanto pra mim. Queria levá-los comigo, cada pedacinho, cada palavra, todo o amor... tanto amor... (ok, ninguém precisa saber que estou limpando algumas lágrimas do rosto agora... é, já foi dito... tarde demais...).

Eu choro à toa, obviamente. Engana-se porém quem acha que esta característica me foi passada pela linhagem feminina da família. Nada! Aqui o buraco é mais embaixo e só tem mulher-macho, forte, decidida! Mamãe é a prova disso! Gostaria de ser tão forte quanto ela. Meu pai e eu temos muito a aprender em relação a segurar as emoções, ficar firme. Estava assim até abraçar meu pai, dizer que o amava e ouvir um "Eu também te amo, minha filha" pelo silêncio do seu choro quase contido. Impossível de conter. Represa. Cachoeira.




Eu vi meu pai chorando e não aguentei. Só que aquelas lágrimas não tinham tristeza nenhuma. Elas eram minha maneira de dizer o quanto eu os amava e estava eternamente agradecida por ter pais tão maravilhosos, que deram 26 anos de suas vidas por mim, que passaram por tantas dificuldades e provações, que abdicaram de tudo para que, naquele dia, eu pudesse concretizar meu maior sonho. Eu devo tudo o que eu sou e tudo o que eu consegui à dedicação e amor incondicionais dos meus pais, Jô e Fernando. E da minha irmã também, claro. Mesmo sendo chata como ela é. :)


Essa foi a última foto que tiramos juntos antes da partida e a primeira vez que me vi sem meus pais ao meu lado. Bom, fisicamente, claro. Skype tá aí pra isso, né minha gente! Deixe eu também agradecer Tia Gil e Ivan por estarem comigo nesse dia e o Mancha e a sobrinha dele.

"Solteira sim. Sozinha nunca!", como diria Mulher Melancia, hahaha. Não estava sozinha, não. Mesmo completamente partida pela comoção da despedida e o adeus à minha família, sabia que estava cercada de amigos maravilhosos que estariam comigo no começo dessa jornada/aventura/viagem (não consegui sair do clichê natural dessas palavras, sorry. Devia parar de pensar sobre o processo de escrever enquanto escrevo, ou, pelo menos, não escrever sobre isso enquanto estou escrevendo sobre um assunto completamente diferente.)

Duty free shop, sala de espera, conversas, risadas, fotos, expectativas, entrada no avião. Tudo lindo, tudo maravilhoso. No entanto, havia uma pergunta que não queria calar... Cadê a Ana??? Rapaz, a Ana iria conosco até Nova York para a orientação na Universidade de Columbia. Sim, mas cadê a Ana?! Gente, esse avião vai decolar, chamem a Ana pelo altofalante! Bom, finalmente ela apareceu! Só não apareceu em tempo para a foto no avião. Ah, brasileiro tira foto em qualquer lugar. Só faltou a bandeira!

Aline, eu, Micheli, Jucy (frente), Juliano, Vivi e Thiago. Cadê a Ana???

Olha, escrever esse post quase me secou por dentro. Chorei que nem bebê só de lembrar deste dia. Ah, mas esse foi o dia que realmente iria mudar o curso de toda uma vida.

Aguardem cenas dos próximos capítulos.



PS: Sim, hoje é dia 24 de outubro e vai fazer três meses que cheguei na terra do Tio Sam. Centenas de coisas já aconteceram e realmente preciso escrever sobre todas elas. Já devia ter feito isso, claro. Já deveria ter feito milhões de coisas, é sempre assim. Mas bora lá que a gente consegue!

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Das Maneiras de Perder um Voo

Os posts a seguir terão um caráter bem retrospectivo. Mesmo fazendo 11 dias desde a minha chegada aos Estados Unidos (na verdade, já faz um pouquinho mais de um mês - escrevi isso há duas semanas e só estou publicando agora... shame on me!), preciso registrar tudo o que de incrível aconteceu comigo desde que arrumei as malas até estar aqui sentada no carpete ao lado da minha cama, curtindo (n)o calor do Arizona.

Não fui vítima de ansiedade ou crises existenciais durante os preparativos para a viagem. Consegui arrumar as malas três dias antes e rearranjá-las novamente, tirando metade das coisas que tinha pensado em levar (Aliás, supostamente aprendi a fazer a mala perfeita aqui. A questão é que as coisas na mala não ficaram exatamente do jeito que eu imaginava... já já eu conto!). Mesmo assim, as malas estavam pesadas... ah! Só mesmo as minhas costas podem testemunhar o sofrimento pelo qual passaram.

The Luggage Blog

A despedida final fora adiada para o aeroporto. Minha família inteira (papai, mamãe, irmã, tia, primo e até vizinho e sua sobrinha) acompanharam-me ao Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos. Dois carros saíram em comitiva pela Marginal Pinheiros, caminho que conhecia e achava mais seguro tomar para não me perder. Estava preocupada que um dos carros tomasse uma rota diferente e minha segunda mala ficasse definitivamente em terras brasileiras. Realmente, não precisei preocupar-me com malas sumindo ou coisas do tipo. Na verdade, a chegada ao aeroporto foi mais emocionante e inesperada do que eu sequer poderia imaginar.

O sol naquele dia de domingo entrava latejante pelo parabrisas do carro. Munida de um GPS e minha vaga lembrança do caminho, guiava meu pai pelas ruas mal sinalizadas da cidade de São Paulo. Como é longe este aeroporto, caramba! O trânsito não atrapalhou em nada, o que foi algo extremamente positivo. No entanto, minha aguçada habilidade em localização e orientação quase nos fez chegar na estrada que vai para o Rio de Janeiro! Nadinha contra minha terra natal, mas meu destino apontava para bem mais longe, waaaay up north!

Mas, pois é. Aconteceu que, já na boca do tubo, perdemos a entrada do aeroporto. Tentando consertar, muito mais à frente, fizemos um retorno para, mais tarde, entrarmos em uma rua errada que nos levava agora de volta para São Paulo! Ah, tão perto mas tão longe! Não conseguia acreditar que perderia o voo mais importante de minha vida daquela maneira tão boba. Esquerda, direita, retorno, placas que multiplicavam-se à minha frente e que não diziam nada de concreto. Comecei a ficar extremamente nervosa, ajudada pelos comentários carinhosamente cheios de escárnio da minha querida irmã, a vontade crescente do meu pai de parar o carro para fazer xixi, a preocupação com o carro atrás que carregava a outra mala e o fato de que estava perdida e faltavam 5 horas para o meu voo decolar. Sim, saí de casa com uma antecedência tal que me dei ao luxo de me perder da maneira mais idiota possível...

Levamos uma hora para chegar à região de Guarulhos e mais outra hora para encontrarmos a rota certa. Chegando ao aeroporto cedo, ainda teria tempo de voltar para casa e me perder novamente. Não, era muito arriscado. Se tivesse saído mais tarde e não tivesse previsto algo tão incrível como isto, talvez não estivesse aqui agora. :/

É, se as coisas não vierem com emoção, não tem graça alguma! Assim que é bom!

Qualquer tensão que a ida ao aeroporto pudesse ter gerado foi embora rapidinho logo depois que entrei na fila do check-in e encontrei meus queridos Fulbrighters! Bom, mas essa história fica para o próximo post. :)



segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Despedidas, Samba e Muita Comida

As despedidas começaram cedo e foram organizadas de modo prático. Com as habilidades de Relações Públicas adquiridas por minha irmã, organizamos uma festa em casa um mês antes da data da viagem. "Que exagero!", diriam alguns, mas percebi com alívio como foi benéfico dizer adeus aos meus entes queridos aos poucos. Fosse a festa realizada na última semana, provavelmente ela não teria acontecido.

Chamamos todos para um encontro informal, depois do horário do almoço, lá pelas 14 horas. Os convidados deveriam trazer algum prato salgado e/ou uma sobremesa e/ou uma bebida para compor a mesa e alimentar toda a família e amigos.

A festa foi até às 22:00 e não varou a madrugada porque uma andorinha só não faz verão, né Heda? Havia muitos salgadinhos, de todos os tipos, tamanhos e sabores. Era comida para alimentar um batalhão e produzir muito tecido adiposo, eu que o diga! Rolou muito samba, gargalhadas, bagunça e até discurso!

O mês foi passando e os preparativos continuavam. A cada dia, a cada minuto que passava, eu tentava acostumar-me com a ideia de que estaria longe da minha família por quase um ano. Isso pode ser fácil para muita gente, mas certamente não é para quem conviveu com as três melhores pessoas do mundo por 26 anos.

Tentei sair com meus amigos queridos por várias vezes durante estes últimos dias, a fim de renovar nossos laços e comprovar o quanto os amo. Um grande beijo, seus lindos! 

A última despedida foi em um rodízio de pizza maravilhoso perto do autódromo, na Casa da Pizza. Uma das minhas melhores amigas desde e para todo o sempre organizou o encontro que contou com muita farra, pizzas de todos os sabores, fotos reveladoras, cantorias e mais algumas calorias. :P


Definitivamente, não gosto de pizza doce. 
Veja o detalhe do nome do carro atrás, milimetricamente calculado.
Sensualizando à la Beyoncé para a câmera.

Às vezes a vida passa despercebida, ora devagar, ora rápido demais. O que vou dizer vai parecer bem clichê, mas são realmente os pequenos momentos que valem a pena, ficam, duram e são lembrados com carinho. Comparecer, ligar, chamar, dar um tapinha de apoio nas costas, desejar tudo de bom, abraçar, sorrir, abraçar de novo, limpar uma lágrima sorrateira no rosto, dizer adeus. Ah, se vocês soubessem o quanto eu amo vocês e como sou feliz em saber que, não importa o que eu faça e onde eu esteja, vocês estarão sempre desejando o melhor para mim!

Não, definitivamente esse não é um adeus.

Até logo! \o/

domingo, 8 de julho de 2012

Um Bom Motivo

Faz meses que não escrevo neste blog. A última postagem data do ano passado, quando meu entusiasmo criativo já estava arrefecendo e a preguiça era muito, muito mais comum. A volta, como diz o título do post, tem uma boa razão. Boa não, louvável. Melhor... incrível!
Lembram-se daquelas histórias sobre intercâmbios, viagens ao exterior e planos mirabolantes que eu tinha sobre estudar nos Estados Unidos? Pois bem, aqui vamos nós!

Ainda parece muito difícil de digerir tudo que tem acontecido nestes últimos meses, desde quando recebi a notícia de que havia sido escolhida pela Universidade do Arizona para ser uma de suas professoras de português. Espere aí, estou começando in media res e há muito a ser dito sobre o fato de que, em pouco mais de 20 dias, estarei com malas prontas para morar no Deserto de Sonora!

Olha, provavelmente não vou me lembrar de tudo que fiz, que senti e quais pensamentos eu tinha no começo do ano passado, quando ouvi falar do programa FLTA (Foreign Language Teaching Assistant) da Comissão Fulbright. Pensando cá com meus botões, acho que descobri sobre esta organização fuçando o site do Consulado dos Estados Unidos no Brasil. Ainda estava terminando a faculdade na USP e, de acordo com meus planos, qualquer viagem que faria só poderia acontecer depois que tivesse completado todas aquelas intermináveis horas de estágio. Então, enquanto me virava com dezenas de relatórios, trabalhos desnecessariamente complexos, preparação de aulas de inglês e um projeto de mestrado ainda fracamente concebido, apertava o F5 no site da Comissão Fulbright no Brasil a fim de saber quando as incrições para o FLTA abririam. Sério, eu fazia isso todos os dias. De manhã, logo depois do café, F5 e um suspiro de resignação.

Qual não é a minha surpresa quando, em um belo dia, lá pelo meio de junho ou julho, não sei, as inscrições tinham sido abertas! Corro como louca até minha mãe, falando desconexamente sobre uma bolsa para dar aulas de português nos EUA, que eu iria me inscrever, que ia ser muito legal, que eu tinha muitas coisas a fazer, que ela deveria começar a tomar as suas doses de insulina sozinha já que eu não estaria mais aqui para ajudá-la... enfim, tava louquinha da silva.

Mãããããããããããããããããããeeeeeeeeeeee!

No entanto, o caminho a ser percorrido era muito longo. A inscrição terminava em dois meses e eu teria que juntar documentos, comprovantes, diplomas, cartas de recomendação, redações super criativas e bem escritas... tantas coisas! Algum tempo depois de ter enviado o formulário com tudo que deveria, recebi um e-mail da Rejania. Ah, meus colegas Fulbrighters bem sabem como é maravilhoso receber um e-mail da Rejania! Ela é a coordenadora de progamas da Fulbright e responsável por comunicar nossa seleção nas fases do processo seletivo. Envio de documentos, entrevista por telefone com a Comissão Fulbright e a Capes (tem-se que dizer, sem o financiamento deles, isso não seria possível nesta escala), preenchimento de questionários... Cansativo, doloroso, e quanta ansiedade!

No final do ano passado, recebi um e-mail que comunicava minha seleção... como suplente. Só iria se um dos candidatos recomendados desistisse da vaga. Mesmo torcendo para que alguém engravidasse, ganhasse na loteria ou decidisse ficar no Brasil este ano, sabia que ninguém iria deixar passar uma oportunidade tão incrível como esta. Eu não iria. Nunca

Não sei se acredito em destino e que certas coisas estão marcadas para acontecer. Gosto de acreditar que eu sou um agente importante e responsável pelas decisões que tomo em minha vida. Neste momento, infelizmente, a decisão não dependia de mim. Enchi-me de resignação e fui viver minha vida: trabalhando que nem um cavalo, comecei um curso de Intérprete em Língua Inglesa na PUC (dizia eu que era saudade de estudar... hum...), planejei montar um ateliêr de artes/sala de aula no quintal de casa (construído tijolo por tijolo pelo meu querido pai). Pensei até em investir em outra coisa bem grande, mas nada à distância funciona, eu bem sei disso.

Daí, no dia 16 de abril de 2012, três dias depois do meu aniversário, e-mail da Rejania! A pedido da coordenação do programa nos EUA, eu teria que traduzir meus documentos. Cara, isso aconteceu meeeeeeses depois da última comunicação e sim, já tinha perdido as esperanças. Ainda sim, devo admitir que fiz minha mãe aprender a tomar insulina sozinha. Costumava dizer para ela: "Vai saber, né mãe? Quem sabe sou selecionada. De qualquer modo, é melhor a senhora fazer isso sozinha mesmo." Batata!

7 de maio de 2012. Recebi o e-mail com o match da Universidade do Arizona! Uau! Eu simplesmente iria para os Estados Unidos, com tudo pago, para dar aulas de português em Tucson, no Arizona! Tinha que ler um monte de documentos, assinar tantos outros, escaneá-los, mandar tudo para os órgãos responsáveis. Ah, EU FUI SELECIONADA!!!

22 de maio de 2012. E-mail com os detalhes da Summer Orientation, evento do qual todos os FLTAs participam antes do começo do seu programa de estudos/trabalho na instituição que os selecionou. Onde será minha SO? NOVA YORK! 

(Apesar do tamanho do post, estou pulando vários detalhes. Eles virão com o tempo.)

6 de junho de 2012. Rejania finalmente libera o contato de todos os FLTAs selecionados no Brasil, cada um indo para um local diferente nos EUA. Ah, que alívio poder conversar e desabafar com seus iguais! Pessoas que estavam passando pela mesma crise de ansiedade e nervosismo que me acometeu desde a comunicação da seleção. 

28 de junho de 2012. Todos os FLTAs de todos os cantos e recantos do Brasil se encontram na cidade de São Paulo, na Alumni Jardins. Lá, conhecemos a fofa da Rejania e assistimos às palestras de duas ex-FLTAs. Nos confraternizamos, tiramos fotos, uma galera super legal e gente boa!

29 de junho de 2012. Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, em São Paulo. Não entramos pelo portão dos pobres mortais, hehehe! Pô, há que se dizer, fomos tratados a pão de ló! Assistimos palestras, almoçamos no Consulado, tínhamos um crachá de "Visitor - Escort Required" (hehehe) e, para terminar, passamos na frente de todas as madames na fila! Hauhauhauha! Afinal de contas, éramos Fulbrighters! Pelas palavras dos palestrantes no Consulado, tínhamos tudo para nos acharmos as 35 últimas bolachinhas no pacote. :)

Bom, melhor dizendo, SOMOS FULBRIGHTERS! Vamos todos fazer um trabalho incrível nos Estados Unidos, ensinando nossa língua portuguesa, mostrando a cultura brasileira e tendo a melhor experiência possível por lá.

My dear fellow Fulbrighters!
Este é o motivo para recomeçar a postar no blog. É por aqui que vou contar minha história nas terras áridas de Tucson, AZ.

Bring it on! \o/




domingo, 2 de outubro de 2011

A Língua Estrangeira





Essa estrangeira, que talvez jamais venha ser inteiramente a língua para mim, no sentido que o é minha língua materna, desestrutura o meu pensar, desorganiza minha sintaxe, rearruma espaços, cria efeitos de sentido novos, insuspeitados no meu dizer o mundo. Falando outra língua, sou em outro lugar, faço sentidos diversos do que faria se só conhecesse a minha.






(PIETROLONGO, 2001, p. 196-197) em http://ensino-estrangeiros.blogspot.com/

sábado, 1 de outubro de 2011

O efêmero entusiasmo das primeiras páginas

Finalmente consegui o meu caderno/agenda/bloco de notas com folhas coloridas! A bem da verdade, não são exatamente as cores que procurava: queria algo mais forte e marcante, bem colorido mesmo. Estas cores aqui estão um pouco fracas, com exceção deste primeiro bloco no qual escrevo. Também esperava um acabamento mais refinado, com folhas do mesmo tamanho e marcador de fita de cetim. Bom, não se pode ter tudo por R$ 6,00, não é? Estou mais do que satisfeita, já que a vontade de escrever nestas folhas coloridas estava quase insuportável.

***

O ônibus começou a andar. Eu ainda não dominei a invejável habilidade de escrever dentro de um veículo em movimento. As ruas de São Paulo e a suspensão desta chocoalhante Mercedes definitivamente não ajudam. Mais ainda, não gosto de enxergar garranchos em minha escrita. Já basta pecar no conteúdo, tentemos deixar a forma mais adequada, oras.
Não sei porque costumo postular os propósitos de cada um desses novos cadernos (o ônibus continua em movimento...). Já que a mania carece de explicação e não guardo nenhuma na minha algibeira, bora perpetuá-la.
Comecemos pela negativas: não é um diário, pelo simples motivo de não deitar-lhe o lápis a cada 24 horas. E, bom... acho que esta é a grande negativa definidora. Termina bem aqui a tábua das leis. O resto é resto, e permitido.

***

De volta. Já estou em casa. Até que fiz um bom trabalho ao escrever dentro do ônibus.
Pensando melhor, se a cor das folhas fosse muito escura, talvez eu não conseguisse ver as letras!
Ok, estas palavras inúteis só serviram para preencher as últimas linhas.

***

Ia começar com "francamente", mas advérbios me perseguem constantemente.
Estas linhas insistem em não ficar retas. Poderia economizar muito mais. Vamos lá, esforce-se, o que está aqui deveria ser minimamente significativo.
Acho que poderia começar um romance. Só retalhos. Sem maiores pretensões. Costurar tudo depois deveria ser o de menos. O que mais me preocupa é o tipo, cor e linha que vou usar. Sinceramente, também nem sei costurar muito bem. A tarefa vai tornando-se mais difícil.

***

Que bom estar escrevendo à caneta. Embora não possa apagar meus erros, talvez aprenda com sua persistência. Ah, me dá gosto mesmo ver a folha cheia.

domingo, 11 de setembro de 2011

Socorro!



Final da semana do saco cheio e não fiz metade do que pretendia fazer! Já posso começar a entrar em pânico?!??

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Momento Craft: Agulheiro de Tomate

As férias me deram tempo de sobra para que eu me dedicasse ao artesanato. Durante estas semanas, migrei do tricô à pintura e forração de caixas, passei pelo biscuit, fiquei um tempo na costura e estou pensando em voltar a fazer aquela minha manta de crochê (essa vai demorar para ficar pronta...).

Acho muito divertido criar coisas do nada, como o MacGyver que faz uma bomba com um clipe de papel, um elástico e um chiclete, hehehe. Ele foi, sem dúvida, o visionário do mundo craft. 

Longe de bombas e explosões, juntei pedaços de feltro, linha, agulha e enchimento acrílico para fazer um delicioso tomate



Na verdade, é o meu futuro agulheiro, para quando eu precisar espetar as agulhas que vou usar nas minhas futuras confecções, feitas na minha futura máquina de costura, que vai estar no meu futuro ateliê. É, sonhar não faz mal... :D



Estava pensando em adaptar a receita e fazer agulheiros de todos os tipos: laranja, limão, abacaxi, cenoura, melancia. Ficaria tão fofo! A base é simples e tem que ter o enchimento, destes que existem em travesseiros e almofadas (o acrílico!). Daí, a decoração fica por conta do freguês.

A receita do agulheiro de tomate foi tirada da Revista Ateliê na TV nº 61 e criada pela Aline Costa Sacilotto.
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