Não sei porque me incomodo tanto em escrever em primeira pessoa. Talvez não queira praticar o pecado do egoísmo e despejar comentários inúteis sobre eu, mim e eu mesma. Por outro lado, é muito provável que a verdadeira razão esteja em admitir que os acontecimentos do meu dia-a-dia estão mais para um manual de televisão antiga do que um roteiro de cinema.
Como qualquer bom personagem, deveria ser capaz de mudar o rumo da história e tornar a minha vida muito mais atraente. No entanto, sinto-me invariavelmente presa a um narrador onisciente dos mais presunçosos, que diz sempre saber o que é melhor para mim e não aceita cortes e intrusões no seu romance.
Não conheço as respostas para as grandes questões da humanidade e, muitas vezes, nem as das coisas banais como, por exemplo, qual esmalte devo usar nas unhas ou qual exercício é o mais adequado para terminar minhas aulas de inglês. Sei de absolutamente quase nada e continuo assim. Tenho a leve e aterrorizante impressão de que o conhecimento adquirido tem crescido em uma progressão geométrica invertida, resultando em uma função nula, praticamente incógnita.
Ultimamente eu tenho tentado, sem sucesso, decifrar as idiossincrasias desse meu código estranho. Fecho os olhos e procuro por aquela fagulha bem brilhante que me mostrava todas as possibilidades à minha frente, e ainda marcava as mais interessantes com caneta fluorescente. Conseguia ver o mundo com olhos diferentes e sentia um entusiasmo incomparável. Ainda assim, depois de muita concentração e até reza, percebo que a resposta que tanto procuro só vai aparecer quando resolver este problema e torná-lo nada mais que dois denominadores comuns, divisíveis por dois.
É uma pena que eu não seja muito boa em matemática.

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