Chegara o momento tão esperado e ao mesmo tempo tão temido. Confrontar aquela página em branco e superar o desafio de preenchê-la com as suas ideias e cadeias de sentenças era uma guerra declarada. Em frente à folha de papel em cima da mesa ou mesmo à tela do computador, o desconforto era iminente. Os olhos encolhiam, perscrutando um espaço possível onde as palavras fossem apropriadas e fizessem sentindo. Como uma metralhadora frenética, as balas da arma eram substituídas por letras que alvejavam todo o papel branco, agora cheio de furos, feridas, palavras. A tensão era crescente. Uma vez ou outra, aquela cor parecia tomar sua mente e expulsar todas as frases, notas, ideias, todas as… deu branco. Branco! Nem mesmo a troca por uma folha reciclada resolvera o problema… deu pardo! Pardo! Respira fundo, respira. Onde estão as palavras? Atemorizadas, se escondem nas trincheiras mais profundas da mente ao serem tomadas pela explosão de uma das armas mais letais: o Esquecimento. Parente próximo do Bloqueio, ele vem sorrateiro, no momento mais inadequado, e derrota as palavras sem piedade. Estas fogem como formigas fogem da água, enlouquecidas, correndo para todos os lados, separadas. Se elas soubessem que assim, longe uma das outras, não vão conseguir lutar contra esse inimigo tão brutal! Se soubessem da força que sua união engendra, elas poderiam derrotar exércitos inteiros! Sua tecitura magnífica formando orações, períodos compostos, frases, parágrafos, textos, livros! Ah! A guerra é exaustiva. Muitas vezes, o inimigo sai vitorioso e se gaba copiosamente, jogando na cara do escritor a sua inabilidade com as palavras. Nas outras poucas vezes, as palavras recobram sua força inata e, como imãs-irmãs, juntam-se para levar a cabo seu propósito no mundo.

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