O dicionário Aurélio define a palavra estagiário com impressionante riqueza vocabular: sm. Aquele que faz estágio. É... realmente... tinha uma ideia de que estagiários faziam isso mesmo... Bom, a despeito de explicação tão exaustiva, o mesmo dicionário trouxe à tona um significado interessante para a palavra estágio: etapa, fase. E é nesse ponto, meus amigos, que todos nós devemos nos agarrar. Por mais que você esteja cansado de subir e descer escadas, escrever imensos relatórios e se perguntar como trazer café para o pessoal do escritório vai agregar alguma coisa à sua formação profissional, saiba que isso tudo uma dia vai passar. E você vai esperar ansiosamente para que chegue a sua hora de ter o seu próprio escravo estagiário, e descontar tudo o que você sofreu no pobre coitado: "Me traz um café bem quente com leite de cabra e sete gotas e meia de adoçante, pra ontem!"
Por Allan Sieber
Ser estagiário não é fácil mesmo mas é necessário. É uma etapa de aprendizado e conhecimento prático que podem definir de uma vez por todas o caminho que sua profissão vai tomar. Foram com esses bons pensamentos em mente que bati à porta da escola pública em que farei as primeiras 80 horas de estágio requeridas pelo meu curso de Licenciatura. Até então, não sabia que conseguiria o estágio lá e estava estranhamente nervosa horas antes de chegar ao local.
A distância do ponto de ônibus até a escola é de cerca de dois quarteirões, que se tornaram maiores que campos de futebol para as minhas pernas. Nunca achei a expressão "estar com o coração na mão" mais verdadeira, porque o meu batia tanto que parecia querer pular para fora. Não entendia muito bem essa ansiedade exacerbada, uma vez que só iria conversar sobre a possibilidade de estágio em uma escola que normalmente recebe os licenciandos de braços abertos. E, mesmo que não conseguisse, ora, acharia em outro lugar, certo? [insira aqui comentários de alunos-estagiários enxotados de escolas]
Muito provavelmente, o que tornava este momento um problema sério para os meus nervos era o fato de que eu havia estudado naquela escola. Meus últimos anos do Ensino Médio foram passados ali dentro daquela construção grande e azul (que, na verdade, era cor de rosa na minha época), cheia de grades e regras. A volta da filha pródiga, sete anos depois, àquela instituição que criou possibilidades e fomentou habilidades não era de todo simples e rotineira. Era um evento especial.
Enquanto pensava nisso, percebi que já estava em frente à secretaria, recitando o mantra que havia decorado durante os últimos dois dias: "Olá, me chamo... sou aluna da US... estou aqui para falar sobre estágio...". Superando minhas expectativas em relação ao atendimento público em secretarias escolares, em menos de um minuto já estava dentro da escola. Trinta segundos depois estava na sala da vice-diretora que, com muita alegria, descobri ser uma antiga professora de português. Aliás, grande parte dos meus ex-professores ainda estavam lá, insistentemente trabalhando em uma profissão que te dá tudo menos orgulho, prestígio ou dinheiro.
Ok, nada do discurso de que a vida de professor é uma droga e blá blá blá. Sei que a situação das escolas é precária e as políticas públicas destinadas à educação no Brasil são risíveis, mas foi essa a profissão que escolhi e sim, tenho muita satisfação em dizer que sou professora, muito obrigada. Digo isso porque minha intenção é continuar no private practice. Aqueles sobreviventes que vi entrando na sala de professores naquele dia, esses sim podem dizer com propriedade o que é ser um professor no Brasil.
No entanto, numa tentativa de estimular minha permanência na profissão, uma de minhas antigas professoras me disse que aquilo ali era um inferno e que eu não ia gostar do estágio. Olha, mesmo assim, eu resolvi encarar o desafio. É importante para que eu decida o que fazer com a minha vida, com conhecimento de causa. Afinal de contas, me arrepender do que não fiz não é minha praia.
Antes de ir embora, fui até o pátio central no fim do intervalo (Aliás, sempre pensei sobre a transição dos alunos que começam a chamar de intervalo o que antes chamavam de recreio. Eles realmente acham que é mais adulto falar assim. Que pressa besta pra crescer, né? A vida no recreio era bem mais divertida.) e fiquei observando os alunos conversando nos cantos, brincando, rindo e demorando o máximo que podiam para voltar às salas de aula. Tudo parecia estar no mesmo lugar e do mesmo jeito, com a única diferença que eu tinha certeza de que o tempo havia passado por ali e também por mim. Lá estava eu, de volta, e agora do outro lado.
Em tempo: começo o estágio na semana que vem, às quintas e sextas. Esperem por cenas dos próximos capítulos.

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